terça-feira, 30 de dezembro de 2025

2025 ou A Bicicleta Cor-de-Rosa

 

Imagem gerada por IA

Um pai caminhava com a filha. Ela, pequena e encasacada, arrastando os pés em jeito de cansaço. Ele, encolhido, dando uma mão à menina e segurando na outra a igualmente miniatural bicicleta cor-de-rosa. Subiam a ladeira. Ambos rendidos ao cansaço, sem trocarem palavra. E, ainda assim, a bicicleta seguia, rodas ao alto, testemunha do amor.

 

Esta imagem, ainda agora absorvida pelos olhos dezembrinos, trazia dentro este ano com prazo de validade iminente. Não que isso importe, se considerarmos que deviam ter-me dito, há um ano, que ele chegava cheio, mas não bom.

 

2025 foi um ano de mudanças. Em janeiro, mudava de casa, preparando-me para enfrentar o festival do caixote e a saga das encomendas e serviços. Por entre a azáfama, apercebi-me tarde demais de que estava a ignorar o incontornável: uma escassez de trabalho que podia mandar-me – e me mandou – para o patamar abaixo do lodo. Em janeiro morreu um amigo. Em fevereiro morreu um amigo. Debaixo do lodo e quando dele tomei fôlego, na enxurrada de imprevistos e expetativas defraudadas, vesti-me de Abril. Decisão sóbria de quem, não podendo estar como quer, pode ao menos ser fiel à sua essência. Em abril morreu um amigo. Cansada, como a menina encasacada, não tive quem me pegasse ao colo. Mas tive quem me aliviasse do peso da bicicleta e me desse a mão. Amigos – felizmente vivos – que leiloaram a sua arte para me ajudar. Amigos – felizmente vivos – que me quiseram na mesa dos seus aniversários, mesmo sem que eu pudesse pagar a refeição. Pessoas – felizmente vivas – que ofereceram a sua ajuda, que partilharam os seus conhecimentos, que me pagaram contas e encheram a despensa.

 

Quem me conhece sabe que gosto de levar a minha própria bicicleta e que sou intolerante a que me peguem. Mas, quando 2025 decidiu reinar no meu reino, eu larguei o cetro do controlo. Talvez seja essa a mensagem deste ano. Aprender a largar o controlo, de vez em quando, e assistir a Abril nos outros, ao modo como avançam, em revolução pacífica, com as armas em punho, mas dando-me Liberdade.

 

O ano seguiu, melhorou. Despedi-me, com carinho, dos passos dobrados na areia e ganhei, assim, a inesperada felicidade da amizade mais pura. Depois – porque é para amar que aqui vimos – resignei-me ao sentimento mais estável dos estáveis sentimentos. Ali, nesse mar de sentir simplesmente o que sinto, tive ainda o alento do sonho e da ilusão. Sonho e ilusão muito breves, é verdade, mas tão bonitos... tão bonitos, que a recordação me faz feliz.

 

Chorei. Gastei os olhos de chorar. Fossem os olhos de pedra e estariam erodidos. Mas na almofada inundada de mim, descobri que a humidade faz crescer sementes. As sementes viraram conto e poema. Uma bênção que, por mais que a humanizem, não é deste mundo. Os brotos enraizados ali estão, à minha espera. Mas, sem tempo para chorar, descobri, no final deste ano, o cansaço antigo de ininterrupta labuta. E chego aos últimos dias do ano como vim ao mundo: com um grito preso na garganta, exausta e pronta para enfrentar o que vier.

 

Obrigada a todos os que me viram desabar e, em vez de me levarem ao colo, agarraram o meu peso – essa bicicleta-nada-cor-de-rosa – e me deram a mão.

Obrigada ao Amor, que me leva, mesmo que em silêncio, de sobrevivência em sobrevivência.

E obrigada a Abril. Porque me é. Porque o sou.

 

2025 foi o ano de largar a bicicleta e dar a mão.

Está frio. Tenho os pés doridos. Mas cumpri uma resolução. Logo a primeira. Sobreviver. E acho que, por caminho, surpreendentemente, vivi.


Marina Ferraz



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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ceia de Natal

 

Imagem retirada de Pixabay

Os meus avós casaram no dia de Natal. Então, quando o meu avô morreu, a minha avó caminhava lenta e desgostosa pela casa, escondendo as lágrimas atrás de desculpas simples. Choram-me os olhos e não sei porquê, dizia.

Os olhos choravam-lhe de saudade. Os olhos choravam-lhe de tristeza. As lágrimas eram ornamento triste dos pratos da consoada, regando-os com o sal da alma.

 

Ano após ano, a mesma alergia à falta que ele fazia lhe regava os olhos.

Ano após ano, até ao ano em que também ela não estava para celebrar em lágrimas a quadra do seu matrimónio.

 

Ao redor da mesa, sentamo-nos ainda. Temos o nosso mundo, esse do privilégio, servido nos pratos. Uma dose de desarmonia política e de perguntas inconvenientes. Duas pitadas de piadas descontextualizadas. Bacalhau, batatas e couve cozida. Doces para uma legião. Leitores de clássicos e de fast food literário. Um menu cheio de neurodivergências. E a memória.

 

Sou melhor a conter as lágrimas do que a minha avó era. Ela chorava por dois motivos: por tudo e por nada. Eu guardo-me para o nada. Mas a realidade do mundo é esse nada.

 

Vazios estão três lugares na minha ceia. O do meu avô. O da minha avó. O da esperança.

 

A esperança costumava sentar-se entre eles, onde havia calor. Era ela que amenizava o peso do privilégio, acreditando que se encontraria solução para a guerra e a fome. Era ela que harmonizava as conversas e tirava densidade à paródia funesta e negra. Era ela que sugeria novas obras, que agradassem a leitores e pseudo-leitores.

 

Fico a pensar se a esperança morreu para todos ou só para mim. Mas ninguém lhe serve o prato. E o Bolo-Rei está inteiro. Ela era a única que gostava de Bolo-Rei!

 

Talvez, penso, a esperança tenha morrido só para mim. Talvez porque eu tenha crescido e já não queira saber de prendas, ou sequer goste de as receber.

 

Hoje, passei pelo presépio. O dos imigrantes. O do puto nu na manjedoura. Parei e disse-lhe. Não cresças. A vida é tão difícil e tão dura, que acabarás como todos nós. A carregar a própria cruz em que hás de morrer. Com toda a gente a olhar e sem ninguém dar conta.

 

E depois, pagã como sou – de fé e vida – espantei-me ao perceber que o lugar mais vazio da mesa é o meu. Que desapareço, roída por cada desalento, um bocadinho todos os anos.

 

O que não tenho em hipocrisia, sobra-me em desalento.

Não olhem para mim agora.

Choram-me os olhos e não sei porquê.


Marina Ferraz



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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Areia

 


Sou a irmã caçula de três. Mas não nasci apenas com o apanágio de vir no fim. Nasci também com uma distância temporal que lhes permitiu serem adolescentes quando eu era criança. Ou, melhor dizendo, que me permitiu ser criança quando eles eram adolescentes.

 

Cresci com dois guarda-costas e dois anjos da guarda, que me protegiam principalmente do mau humor parental, assumindo culpas das minhas tropelias ou interpondo-se, qual muralha, entre a figura austera e o meu pequeno (e não tão inocente) eu. Seguiam, provavelmente, o exemplo dos meus avós, que também me protegiam. Ou até o exemplo da minha mãe que, quando não era a fonte da discórdia, também não permitia que mais ninguém o fosse.

 

Serve esta introdução para explicar o seguinte: quando penso naqueles dois seres, penso em pessoas com quem partilho três coisas  pai, mãe e amor.

 

Acontece que ser criança perto de dois adolescentes – ou, melhor dizendo, ser adolescente perto de uma criança – é bastante difícil na época balnear. A época em que a adolescente quer banhos de sol sossegados. O adolescente quer movimento e aventuras de gente grande. E a criança quer brincar com os dois. Então, ao fim de muita insistência – muitas e muitas insistências, vá – era-me dada a orientação para que cavasse um buraco do meu tamanho. Forma simples de conseguirem descanso e evitarem que o meu eu infantil parasse de repetir “vá lá” e “só um bocadinho”.

 

Cavado aquele buraco, brincavam comigo. O jogo chamava-se múmia. No fundo do meu  humilde buraco, punham uma toalha. Sobre o meu corpo, outra, ajustando-a como quem aconchega um filho antes de dormir. Sobre essa, toda a areia que eu tinha tirado do buraco, até que só a cabeça ficasse de fora.

 

Imóvel, com o peso do que parecia ser uma tonelada de areia e incapaz de me mover, eu aguentava algum tempo antes de gritar: “Tirem-me daqui”. Uma, duas, três vezes. “A sério, malta, já chega!”. Nunca tardavam muito a condescender, vindo com risos que me faziam rir também e dizendo-me que a pele, normalmente húmida dos banhos e agora com areia colada, me fazia parecer um croquete. E corria atrás deles. Atirava baldes de água. Riamos. Construíamos cabanas nas dunas. Éramos felizes.

 

Hoje sei que os meus irmãos me prepararam mal para a vida.

 

Sei-o porque vejo gente com milhões fazer comigo o mesmo que eles faziam. Mandam-me cavar a sepultura. Enterram-me. Nem cabeça de fora fica. E eu que grite “tirem-me daqui” quantas vezes quiser. Porque não há quem venha condescender, rir, deixar-me ser feliz em paz.

 

Enumero os grãos de areia que me enterram. Guerra. Fome. Miséria. Injustiça. Mentira. Ódio. Desassossego. Mês no fim do salário. Contas. Impostos. Mais contas. Mais impostos. Mais ódio. Mais mentira. Outra guerra. A mesma guerra. A mesma guerra outra vez. Invasão. Do país. Da carne. Dos dados. Da vida. Taxas sobre a vida. Sobre o viver. Sobre viver. Sobreviver.

Sob... um monte de grãos de areia. Paralisada. Com saudades de ser criança. Enterrada pelas mãos compassivas de quem sempre me salvava de si e de mim e do mundo.

 

Grito

“Malta, já chega!”

 

Vem um novo carregamento de areia.

Sufoco na ampulheta que eles viram entre os dedos da opulência.

Destinando-nos cabanas mais caras e com piores condições do que aquelas feitas de cana e limo.

 

Deuses. Era tão melhor ser criança entre adolescentes do que é, agora, ser lúcida entre tiranos. Que saudades desses dias de praia, em que a sepultura que escavava não era aquela em que iria morrer.


Marina Ferraz



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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Greve(s)

 

Vídeo publicado no YouTube

Cito, palavra-por-palavra, o que nos pergunta o líder do Governo: Uma greve geral porquê? Uma greve geral para reclamar o quê do Governo e do poder político? Isto, depois de dizer muitos historicamentes. Sabemos que historicamente-isto, e historicamente-aquilo. São histórias e mente. Isso é certo. Mas, hoje, o que incomoda mais é a pergunta. Porque há resposta. Uma greve geral porquê?

 

Senhor Primeiro Ministro, eu explico. É uma greve para evitar a greve. A greve de sono que daria o banco de horas, com a falta de horários compatíveis com a saúde mental e as horas extra. A greve de fome, com a precaridade crescente de jovens que nunca vão sair da senda de contratos temporários e que, perante a inflação, dificilmente conseguirão alimentar-se. A greve de sexo, porque não há melhor forma de evitar uma gravidez do que a abstinência... e ninguém vai ter tempo para cuidar de um bebé ou alimentá-lo... principalmente considerando que o alimento natural é visto com maus olhos pelos seus próprios ministros, que até as lactantes já conseguiram atacar.

 

Esta, senhor Primeiro Ministro, é uma greve para que não haja greve habitacional, ou para que ela não piore. Para que os jovens deixem de viver a eterna greve da independência, vivendo em casa dos pais até estarem perto da idade da reforma. Bem, na verdade, esqueça este último argumento. Reforma. Piada triste para a minha geração, que deverá trabalhar até aos 100 anos, pelo andar da carruagem, e não ter qualquer pensão à sua espera por causa da greve de sexo supramencionada.

 

Esta greve, em palavras que cheguem ao seu nível de intelecto, serve porque a única coisa que ainda não nos roubaram foi a voz. De ouvidos tapados, trauteando a mesma canção do bandido, ignoram-na, mas não a calam. E, para que ela ressoe, é preciso suster a respiração do país e fazer com que o sufoco que nos acompanha nos gritos diários se sinta nos bolsos fundos dos “abnegados” donos disto tudo, recordando que toda a casa começa na fundação, na estrutura, nos alicerces. Lembrando que os alicerces do país é o povo.

 

Mais empática do que o senhor, eu entendo que não entenda. Quando se tem 54 imóveis, comida farta na mesa e um salário de 8 mil euros por mês, é fácil não entender a greve. Eu sei que dizem para “deixarmos o Luís trabalhar” e, por favor, a greve é um direito e não uma lei... sinta-se à vontade para começar a trabalhar quando quiser. Lembrando, por favor, que trabalha para nós e não contra nós... (ainda que não historicamente...)

 

E, agora, vou continuar a minha greve de sono... porque preciso de trabalhar para dar mais de metade do meu salário ao Estado, para impostos, e conseguir pagar as contas. Algo que, provavelmente, também não entende.

 

Já agora, por favor. Pare de dizer que o novo pacote laboral é bom para as pessoas. Primeiro porque nos insulta. Depois porque mente. E o resto é história...


Marina Ferraz



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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Espetáculo

 

Imagem criada por I.A.

A pergunta atravessa o ecrã. Ainda bem. Se viesse num frente a frente, acho que o rosto me denunciaria. Até a mim, que me considero moderadamente boa atriz. Atravessa o ecrã. É só uma pergunta, mas também é uma mina terrestre num percurso de meia-maratona. Tento procurar a suavidade dos eufemismos. Aproveito para reler. Como é Portugal? E respondo da única forma possível:

 

Portugal é um espetáculo!

 

A televisão portuguesa é um espetáculo. O parlamento português é um espetáculo. Os políticos portugueses são um espetáculo. O jornalismo nacional? Espetáculo! A saúde é um espetáculo. A educação é um espetáculo. A função pública, então, é tão espetacular, que é ver as filas para assistir na porta das Finanças e da Segurança Social...

 

Tudo em Portugal é um espetáculo. Mas principalmente os debates políticos! Nem imaginas! Olha: são trinta minutos, com três pessoas numa mesa. Das três, duas estudaram uma lista de piadas tristes e insultos gratuitos. Uma não sabe o que é moderar. Nenhuma das três sabe o que é moderação. E desconfio que nenhum dos quatro – eles e o espetador que assiste – sabe o que é um debate. A cenografia é fantástica, a dança de interrupções é clássica, a sinfonia é moderna, mas com um toque de ancestralidade arcaica. Há poesia nos segundos de silêncio e escrevem-se enredos fictícios interessantíssimos sobre o passado que nunca existiu e o futuro que nunca vai existir. Mas, não te assustes! Ali, nem uma ideia! Nem uma estratégia. Nem um plano. Nem uma solução! Trama novelesca da mais pura, debitada por atores políticos, que assim justificam o nome de atores... embora lhes falte o nível, o charme e o talento. Mas dá para o gasto, já que fazem muito teatro e pouca arte!

 

A televisão aproveita o teatro para o seu espetáculo. Repete o espetáculo. Disseca-o. Apresenta-o dentro de contexto, fora de contexto, com texto, sem texto, com pretexto e sem pretexto. A imprensa repete. As rádios repetem. Diz que disse e... espetáculo! Lemos. O assunto é diverso. Alunos que acham um espetáculo que o ano letivo tenha começado há um trimestre e ainda não tenham professores. E pacientes que acham um espetáculo a consulta urgente estar agendada para daí a um ano e três meses. Acredita! Portugal é sempre a andar...Portugal já nem pára para parir! É ver mães a dar à luz na autoestrada.

 

Espetáculo! Assim vamos andando, de espetáculo em espetáculo.

 

E, depois, o Canal Parlamento, merecedor substituto do Big Brother, num formato que combina o confinamento em espaço fechado de um conjunto de gente intolerável e intolerante com a tirania da Voz do Masterplan, criando as regras para o malabarismo triste que fazemos com o salário para tentar pagar contas e impostos. É do que de mais puro já foi feito no contexto dos Reality Shows! Um espetáculo!

 

Sim. Podes acreditar! Portugal é um espetáculo! Para um país que não apoia a cultura nem os artistas, até chega a ser estranho! Mas Portugal é espetáculo! Tudo o que devia ser sério é espetáculo. Tudo o que devia ser levado com profissionalismo e idoneidade é espetáculo. Só o espetáculo é que não é espetáculo. Porque os artistas querem fazer cultura. Porque os artistas querem fazer arte. Porque os artistas querem – imploram - para que venha um espetáculo. Mas Financiamento? Seria um espetáculo! Mas, espetacularmente, já nem há um ministério exclusivo para a cultura... então...

 

Portanto...sim! Portugal?! É... espetáculo!


Marina Ferraz



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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Quem conta um conto...

 

Fotografia de Hélio Silver

Há muitas histórias que se contam. Contam-se verdades, inverdades, desverdades e mentiras. Como são contos contados na mesma conta-corrente, que se esgueiram a conta-gotas pelas rachas do sistema, é difícil separar o que se conta do que conta.

 

Contam-se mortes e vidas. Uma contabilidade feita de poder e capitalismo. E guerras e ajustes de contas e pazes de faz de conta. Tudo por contadores aos quais uma auditoria contábil não conviria muito, evidentemente...

 

Já contamos com isto. Conta-se que antes da conta – ainda a soma do quadrado dos catetos não se sabia igual ao quadrado da hipotenusa – já se contavam contos com pontos a mais pelas mentes quadradas dos contistas de canto da rua. Assim continua.

 

Contos continuam a contar-se. Conta-se o perder da conta ao tempo nas urgências dos hospitais. Conta-se o somar do canto chorado de bebés nascidos na autoestrada. E conta-se que se contou o conto do tempo em que havia SNS e bebés que nasciam em maternidades. Contam-se, portanto, algumas verdades...

 

Mas também se conta que os imigrantes vêm roubar os nossos trabalhos. Mas há quem conte que eles saturam o estado social, vivendo de subsídios. Portanto, contam-se contos que contradizem os contos que se contam. Tudo no mesmo conto, como convém a quem conta. Conta-se que o contante consiga contar com igual afinco ambas as versões, colocando em ambas a fé que aos contadores de contos cabe.

 

No fim, fazemos as contas. Conta não bate com conto e conto não bate com conta... e ainda bem que vieram os euros porque sabe-se lá quantos contos vale aos contistas o conto que  não bate com a conta.

 

Certo é que, no fim de contas, há muitas histórias que se contam. Muitas pessoas que terão que prestar contas, um dia, pelo que foi contado, ou por não se ter contado com elas. Quando se contar esta história, o que me importa é menos o conto e mais a história em si. Porque a história que se conta é muito menos importante do que a história que conta. E essa, senhores, é uma em que só vou ter em conta uma coisa. Na história que conta, eu quero estar do lado certo da história. Dormir tranquila sabendo-o. Sabendo que, na história que conta, o lado que conta pôde contar comigo.

 

P.S.: para quem conta que novembro conte mais do que abril e quiser contar essa história... uma sugestão: conte outra!


Marina Ferraz



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terça-feira, 18 de novembro de 2025

Normalecer

 Imagem gerada pela I.A.


Algumas pessoas dizem que escrevem para não enlouquecer. Eu não. Ler e escrever são, para mim, formas de fugir da normativa normalizada normalmente imposta.

 

Talvez alguns consigam olhar uma folha em branco e desligar a mente no discorrer de palavras. Talvez alguns consigam ler um livro e desligar o sensor que os liga ao circunstancial momento do mundo. Eu rasgo as mãos e sinto as vértebras dos segundos quando a caneta desliza no caderno, quando os dedos pressionam as teclas do computador, quando um autor diz nas linhas e nas entrelinhas, nas palavras e nas entrepalavras o tanto que eu queria expressar (e nem sempre consigo).

 

A literatura – minha e dos outros – é uma câmara sadomasoquista na qual entro já à espera de sentir. Depois, o meu cérebro autista faz o seu bom trabalho de remistura, sentindo-o demais, E é uma sensação de rasgão interno em cada virar de folha. E é uma sensação de cegueira em cada acender da tela. E é um desnorteio na imprevisibilidade das palavras que me saltam do estômago, como se vomitasse para o papel o espaço que fica entre cada fio do pelo da gata que, entretanto, aterrou ao meu colo.

 

O devaneio vem. É, simultaneamente, apagão e o acender de todas as luzes do mundo. Não vejo muito, mas sei demais. Eis a visão que falta aos que, alegadamente, são normais: a de dentro. Nesse queimar dos olhos, posso garantir que vejo o rosto da fome e do frio, as mãos encardidas da guerra e do tormento, o arrastar de gentes ao bel-prazer de chefes – uns de Estado, outros de atestado, outros de atentado. Vejo o fechar da boca das mulheres e o abrir involuntário da vulva. Vejo o maltratar das crianças. Vejo o maltratar das crianças por outras crianças. Tenho a minha alma arrancada – talvez como os dedos do menino de Cinfães – presa na porta que dá para a Liberdade.

 

Algumas pessoas dizem que escrevem para não enlouquecer. É tarde para mim. Eu nasci louca. Ler e escrever é fuga, porque as palavras saem por vias que enganam o corpo calado, de lábios colados um ao outro, e ele não dá conta que se está a entregar às vergastadas dos outros.

 

Enfim, algumas pessoas dizem que escrevem para não enlouquecer. Eu escrevo para não normalecer. Essa normalidade dormente, padronizada e triste que é âncora e, por sê-lo, nos afunda mais e mais na água turva do momento.

 

Eu escrevo para ser louca, mesmo. Talvez não seja bom ser-se louco. Mas – olhando em volta – é melhor do que a alternativa. Os normais estão a destruir o mundo.


Marina Ferraz



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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Os vossos temas

Imagem gerada pela I.A.

  (Este texto foi criado com base em sugestões temáticas de leitores. Foram-me dados os seguintes temas para este texto:- as cores do outono - o poder do ódio na política moderna - outra lição de gramática - onde está o sabor da doçura - transhumanismo - como esquecer alguém que se ama – Yule)


Surpreendo-me sempre com as cores de outono e o ódio. As cores do outono porque transformam o cenário num outro, tão raro. O ódio porque transforma o cenário num outro, tão comum. Por entre o acender precoce das luzes de Natal, com o aproximar das promessas sempre incumpridas de paz da época festiva – que saudades ficam dos tempos em que se lhe chamava Yule! – os gritos e ofensas cobrem até a voz da Mariah Carey, que – pobre coitada – já anda desde 1994 a mendigar a mesma prenda, sem que ninguém tenha a benevolência de lha dar.

O ódio não é apenas arremessado nas ruas e nas filas dos supermercados. Passa em horário nobre e tem um canal que o patrocina com as cores da bandeira. 

Surpreendida pela inevitabilidade da degradação do homem, dou por mim a pensar no transhumanismo. Na invasão da máquina, no uso do digital, na forma como se cultiva a esperança de um homem sem doença, sem envelhecimento, sem morte. Um homem melhor que o homem. Um homem cibernético, híbrido, eterno. Assusto-me com a ideia de um homem além de si mesmo, e mais ainda com a ideia do homem sem morte. Fico a desejar que se descubra antes onde está o sabor da doçura. Porque nunca o fim pareceu destino mais doce.

Olhando o país e o mundo, o poder do ódio na política moderna, a facilidade com a qual todos nos tornamos escravos ou despojo fácil de substituir, dou por mim a pensar que o maior problema dos Estados é serem (má) figura paterna. Um Estado-mãe não destilaria ódio nenhum. Vá, venham agora os puristas exigir-me outra lição de gramática sobre a dupla negativa... não quero saber! Não destilaria ódio nenhum! Repito-o. A repetição é um recurso estilístico forte e que defenderei até à morte (se o transhumanismo não me roubar a esperança de morrer um dia). Mas, voltando ao Estado-mãe. Não creio que houvesse uma descarga de ódios se isto sucedesse. A mulher é dotada, sempre o achei, de um amor inerente à condição. Como se viesse dos ovários, do clitóris, do útero... vejo pela minha própria mãe! Nunca a vi distinguir pessoas por nacionalidade, sexo, género, profissão, cor de pele, sotaque ou outro critério semelhante. Vejo-a a olhar para as pessoas como se fossem pessoas, guardando apenas um lugar de depreciação e antipatia para com aqueles que não lhe devolvem os Tupperwares. 

No palanque dos sapientes doutores de fatinho, um conjunto de pessoas que nem sabe o que é reservar comida em Tupperwares, come caviar e vomita sentenças. Perguntaram-me recentemente como esquecer alguém que se ama. E eu, que afirmei não ter respostas – tenho 12 anos consecutivos de motivos a confirmar a minha absoluta inutilidade no que às questões da superação diz respeito – posso no entanto apontar os nossos governantes, que tanto afirmam amar Portugal, como exemplo perfeito de alguém que esquece depressa e eficazmente o que diz amar.

Lá fora, a árvore tem as folhas pintadas de vermelho. Não é a primeira vez, mas é como se fosse. Cada outono é o meu primeiro outono. Olho para elas com o mesmo brilho no olhar. Quero que a paz do Yule se acenda com as luzes que já ponteiam os centros comerciais. Quero esquecer o ódio que grita e converte e alastra, qual pandemia sem expetativa de cura. Quero apagar esse ódio e voltar a conhecer o sabor da doçura... Mas, lá está, querer não é poder. Ao menos, a Mariah Carey – também fã da repetição – ensina-nos isso todos os anos... e olhem que ela só quer uma coisa!

 Marina Ferraz



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quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Pronomes pessoais átonos

 

Imagem gerada pela I.A.

Explicar os pronomes pessoais átonos – ou mais especificamente a sua colocação na frase, antes ou depois do verbo – deve ser das tarefas mais inglórias para qualquer pessoa que trabalhe como mentora nas áreas do domínio linguístico. Desde logo, para quem integrou os processos da linguagem de forma imediata, estes pronomes autocolocam-se no local devido, de forma intuitiva, o que é o primeiro passo para ninguém se lembrar da regra gramatical em si. E, depois, quando existem dois verbos a regra é flexível e podemos optar pelas opções mais formais ou pelas mais naturais, dando-nos a desconfiança de que os linguistas que definiram a questão já iam, por esta fase do processo, muito entrados no mundo da embriaguez. Então, na minha perceção, a melhor forma de explicar tudo isto, já depois de se ter falado da posição do verbo na frase e das palavras-chave – como não, já, ainda, também, que, quem, quando, onde, se, porque, como, enquanto... – e se de ter mencionado os nomes “ênclise” e “próclise” que, para efeitos práticos servem para... rigorosamente nada... o melhor é exemplificar com noções próximas, atuais e que sejam claras.

 

Por exemplo: Quando nos dignamos a sair de casa para ir votar, leva-nos algum laivo de esperança de que o vencedor das eleições nos possa ajudar (neste caso também poderia ser ajudar-nos) a ter uma vida melhor. Cada pessoa quer olhar-se como modelo na construção de um futuro que nos leve a melhor rumo.

No entanto, depois de contados os votos é impossível evitar um foda-se (que também poderia ser um que se foda). Ficamos todos com a clara certeza de que, para além de um SNS a autodestruir-se, de uma economia a degradar-se e de um futuro a impossibilitar-se, temos ainda de gerir um sistema ditatorial que, claramente, está a instalar-se (também poderia ser se está a instalar).

 

Li, algures por esse mundo das redes sociais e sem referência à autoria, que “as pessoas se preocupam muito com a sua aparência e nada com o seu caráter”. A frase estava Inglês, mas deixo a tradução – que não se perca um bom exemplo do uso de pronomes átonos! E eu penso que talvez, justamente por ter sido difícil perceber todas as regras de colocação pronominal, muitas pessoas não tenham decorado bem, também, os próprios pronomes e, na lista de me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, lhes, tenham simplesmente ficado pelo me. O que me interessa. O que me convém. O que me vantagem. Não é raro ouvi-lo: voto nele porque diz a verdade e me entende! Porque vai expulsar A, B e C, e isso me dará uma melhor vida. Porque vai acabar com a gatunagem e me pode ajudar a subir na vida (também possível seria pode ajudar-me).

 

Seguindo-lhes o exemplo, posso dizer que isto me parece um bocadinho limitado. Parece-me, na verdade, que isto nos vai levar para o tempo da outra senhora.

 

O IMPA deu, para hoje, um Alerta Laranja, que já vem, penso, um bocadinho fora de época. Essa tempestade já está a causar danos no país faz um tempo. Isto é o que os acontecimentos atuais nos dizem. Os políticos, esses, dizem-nos outra coisa...

 Marina Ferraz



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terça-feira, 28 de outubro de 2025

Autoridade (de boa saúde)

 

Trecho retirado do site da Renascença

Surgiu a ideia de que o Instituto Nacional de Emergência Médica – INEM – mudaria de nome, a 3 de novembro, para Autoridade Nacional de Emergência Médica – ANEM. Embora, aparentemente, fossem fake news, gostei de pensar, numa nota mais otimista, que se tratasse de um serviço trans, que finalmente queria assumir uma identidade mais feminina, dinâmica e ativa. Foi difícil, claro, já que Portugal raramente deu a alguém razões para encarar com positivismo o que quer que seja. Mas fez sentido, mesmo assim, a afinal imaginária alteração, uma vez que o instituto parece avançar para a autofágica extinção por incapacidade acompanhar os tempos despóticos que se vão instalando.

 

Claro que é possível ter pensamentos... se não “positivos”, ao menos pejados de sentido de humor. ANEM, penso, talvez fosse o nome ideal para uma entidade do Ministério da Saúde há muito ANEMica e que opera como se não houvesse um único cérebro envolvido no processo, qual ANEMona.

 

Além disso, sendo uma autoridade, seria mais simples justificar as sirenes, o nascimento das criancinhas em andamento, os atrasos, a falta de pessoal. Afinal, autoridade é o direito legalmente estabelecido de se fazer obedecer... e se algo assim acontecesse seria por haver a autorização para que o fosse. Não precisaríamos mais de questionar a competência, o conhecimento, a sabedoria, a divindade das medidas de ação emergencial. Seriam, afinal, autoridade... lá saberiam o que estavam a fazer!

 

A bordo das ambulâncias do INEM – paz à sua alma, com ou sem mudança de nome – acredito também que muitas pessoas têm vindo a sugerir esta mudança de nomenclatura, dizendo AMEN no fim das orações... que mais temível do que a doença ou a gravidez é o cuidado da emergência médica a caminho do hospital e a receção do SNS à chegada. Eu sei que AMEN e ANEM não são a mesma coisa... mas no meio da confusão, ruído de sirenes, buzinadelas, colher da água na via, toque monocórdico de rodas no alcatrão é provável que até o auxiliar menos disléxico escutasse incorretamente. Deixo a sugestão para que se avance com a mudança do nome... e com a mudança da oração, para acompanhar. Perdoai-nos as nossas doenças, assim como nós perdoamos a quem mal nos tem atendido, não nos deixai cair em enfermidade mas livrai-nos do SNS. ANEM.

 

Oremos, irmãos... e esperemos a ação divina de um deus qualquer. Provavelmente chegará antes da ambulância, da nossa senha nas urgências ou da consulta indispensável que pode salvar-nos a vida. O corpo está condenado, salve-se a alma!

 

Eu, por mim, vou continuar na crença de “café nos salva”. Café para tolerar a mudança de nome. O desmentido da mudança de nome. O facto de haver uma conversa sobre o nome quando tudo o que está relacionado com a saúde em Portugal não está de boa saúde... Mantenho-me na ideia de “café nos salva”. Apesar de, confesso, doer um bocadinho estar bem acordada a assistir a tudo o que acontece em Portugal.


 Marina Ferraz



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